Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Júlio Cortázar


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A grande fala do índio guarani

Agora que o texto já foi o perverso nada e o inverso tudo
como ler a poesia
que se anuncia
como a poesia de agora?

Affonso Romano de Sant’Anna (1978)

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Fe de errata


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O toque colorado de Midas

Pintei a cabeça de alguém. Aquilo que fazia o encaixe dos olhos, do nariz e da boca não estava direito. Onde dei um tiro, todos procuravam arte. No meu corpo já tenho as provas que precisarão contra mim. Logo eles vão chegar para pedir: vão perguntar e eu me farei poeta. Pra que nomes? Era vermelho e estava morto! Mas não é assim que funciona, eles não costumam querer saber. Morreu, é mais santo a partir de agora. Aos vivos resta a pena de serem, mas sempre menos que a memória: menos artistas, menos bons, menos heróis. Estamos na rua. Populares ao meu redor. A sinere quase entre nós. Explodo a cabeça de mais um, três, sete, oito. É lá pelo nono que reconheço a forma que dou à galeria que monto. Sob a minha curadoria, todos perdiam a cabeça. Um a um, eles caiam. E eu sem poder bater uma foto. Ninguém sabia como eu tinha feito uma coisa dessas, não havia um só que entendesse como eu continuava. Ninguém aprendeu nada com 22. Invoco-os, todos. Baader-Meinhof, Duchamp, Leminski, GG Allen, Dunne, e todos os que não caberiam nessas linhas. Poetas da minha geração. Onde fiz um massacre, todos procuravam vanguarda. Só há vida quando se esquece o que foi morte.

Rodrigo Gonzatto

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Duas esfinges

Era uma vez uma esfinge,
Que ficava na estrada de Tebas,
Dali ela gritava aos transeuntes:
"Decifra-me ou te devoro"

Era uma vez outra esfinge,
Que chegou na estrada de Tebas.
Então, com seus passos errantes,
Da primeira ouviu o urro.

Não pensou duas vezes,
Sussurrou por entre os lábios:
"Decifra-me tu, ora bolas".

Jantaram-se a luz de velas,
Temperadas com vinho branco
E torradas para acompanhar.

Fernando de Sá Moreira

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Extracto de Proverbios y cantares XXIX

Caminante, son tus huellas 
el camino y nada más; 
Caminante, no hay camino, 
se hace camino al andar. 
Al andar se hace el camino, 
y al volver la vista atrás 
se ve la senda que nunca 
se ha de volver a pisar. 
Caminante no hay camino 
sino estelas en la mar.

Antonio Machado

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Chico Buarque cita MachIntosh em canção

Trecho da letra de Baticum, do Chico Buarque:

Aquela noite quem tava lá na praia viu
E quem não viu jamais verá
Mas se você quiser saber
A Warner gravou
E a Globo vai passar
(...)
Zeca pensou: antes que era bom
Mano cortou: brother, o que é que há
Foi a G.E. quem iluminou
E a MacIntosh entrou com o vatapá

Foto do Chico Buarque usando um Mac da Apple encontrada no twittpic do @Ale_Canatella.

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Quem se defende

Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.


Bertolt Brecht

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O Livro das Ignorãças

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por atrás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.


Manuel de Barros
O Livro das Ignorãças, Uma didática da invenção, XIX.
Vi o poema num comentário da Mourthé.

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Pós-Aquém

     pensando em nós
saber sem pressa
   querer veloz


Rodrigo Gonzatto

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    tua boca, o meu lábio sublinha
os olhos não sabem, a língua adivinha
vão de encontro até se perderem
    até nossas línguas não saberem
se eram da sua boca ou da minha...


Rodrigo Gonzatto

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Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas


Bertold Brecht

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Cartas na mesa

Entre mim e Celeste,
toda a sorte de paus,
espadas e valetes
- eterno tête-à-tête
feito de blefes e tabefes,
cartas de amor e de baralho,
muito Valium e omelete.

Celeste - cadela! - se soubesse
que roubei dois curingas,
que enrabei Rafaela...
Caralho! Será que ela sabe?
Será? Será que ela sabe? Será? Celeste?

Celeste sabe, eu sei,
dos truques do pôquer,
dos porquês do truco,
mas saberá de Rafaela?
Das demais dançarinas?
Da Sabrina? Da Samanta?
Dos curingas na manga?

"Bati." "De novo?!" "De novo." "Outra mão?"
"Dê as cartas."
Sim, ela sabe - eu sei.
Só não sabe que eu sei que ela sabe.
Será que sabe? Será que ela sabe que eu sei?
Ela sabe que eu sei!
Só não sabe que eu sei que ela sabe.


Não sei o autor.
Se souber, deixe nos comentários!

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...os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provérbios,
tudo pode aparecer como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois.

José Saramago

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Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz [trecho]

Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar

Respeitem a fera.
Triste, sem presas, é fera

Vocês, garotos de colégio,
não perguntem ao poeta quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando:
Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.


Carlos Drummond de Andrade

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silêncio

nu.
eu,
tu.


Rodrigo Gonzatto

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simples

  quero sinais claros
  - não só os olhares


quero todas as explosões de alegria
e os mares de rosas
os medos e os cochichos
todas as folhas de caderno rasgadas

  se não for pra ser assim,
  então não me serve
  não me satisfaz...


quero tudo!
dos suspiros contidos à voz que falha:
eu preciso é das mãos que tremem!

um sinal simples
como uma noite passada em claro,
ou um sonho em plena luz do dia...


Rodrigo Gonzatto

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Da primeira vez...

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Mario Quintana

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Escrever nem uma coisa
Nem outra
-A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar
-Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.


Manoel de Barrros

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[das apresentações formais]

- apresento-lhe meu caro anônimo célebre.
- enchanté, sou o ilustre desconhecido.


Giuliano Quase

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